Menino do Mar .

14:54 / Publicada por tania / comentários (1)

Às vezes não sei o que hei-de fazer da vida, vejo os dias sucederem-se num comboio estúpido e sem estações.

O comboio desliza sobre os carris cada vez mais depressa como se a qualquer instante perdesse a aderência e descarrilasse e então imagino as carruagens tombadas com as vísceras das minhas memórias espalhadas por todo o lado, a vida desmantelada naquilo que já foi uma existência rica e cheia e que agora não vale nada. Ou então o comboio transforma-se num pássaro, crescem-lhe asas e cruza os céus com o peso das carruagens às costas que carregam o fardo das minhas memórias, as asas são enormes e desajeitadas e os comboios não sabem voar, o que vejo no céu é um monte de ferro e entulho com asas de chumbo à procura de uma nova dimensão, no derradeiro esforço de tentar, mais uma vez, outro caminho, outra saída para uma existência que perdeu o sentido e o lugar.

Vida? Qual vida?

Há momentos que nos ficam para sempre, que guardamos em segredo e no silêncio, para nada nem ninguém lhes possam tocar. São só nossos. Tu és um desses momentos, ficas, permaneces, sempre.

A sua importância é incomensurável e por isso pertencem a outra dimensão. A dimensão rara e perfeita que se sente em certas músicas ou em tardes de Verão, em que nós somos mesmo nós e, apesar disso, conseguimos estar em paz.

Há qualquer coisa de sagrado em ti, uma doçura que perdi há menos tempo do que penso e há mais do que gostaria, uma paz que não vem da terra e quando começas a falar das coisas em que acreditas, é como se te elevasses no ar, como um avião e papel, rápido e leve, caindo com a graça das peças frágeis que só por milagre não se partem. Fecho os olhos quando me deito e só então aguento ruído infernal de uma máquina a bater cá dentro, sem saber como nem porquê nem para quê, como se o que cá ando a fazer não estivesse certo, não tivesse sentido ou não servisse para nada, e é então que me apareces. Vejo-te sempre a rir, com muitas crianças à volta, ou então, a andar sobre uma linha vermelha, com um véu azul. Dizem que o azul guarda a paz e a eternidade e o vermelho o fogo da paixão. E tu andas sobre um fio ténue, à tua volta há muito espaço e os azuis combinam-se e entram uns pelos outros sem pedir licença.Há qualquer coisa de divino em ti.

Mas a vida é isto: acho que tenho mais sorte que os outros, pois já amei alguém. Agora, aprendi a amar a vida, a cor da lua quando enche, o tempo que passamos juntos, tu e eu, num sossego só nosso, feito de pequenos instantes perfeitos que se vão dissolvendo na espuma dos dias.